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Da Alemanha para a "Rua do lixo"



Da Alemanha para a "Rua do lixo"

Arcoverde // Jovens alemães rompem preconceitos e deixam seu país para ajudar pessoas carentes na Fundação Terra
Aline Moura
alinemoura.pe@dabr.com.br


Quem chega à procura da Fundação Terra em Arcoverde, no Sertão, a 259 quilômetros do Recife, descobre com facilidade sua localização. Não há mistérios, "fica na Rua do lixo", dizem os moradores do município.


Trabalho voluntário é realizado com crianças e idosos, moradores da "Rua do lixo" e das redondezas.Fotos: Helder Tavares/DP/D.A Press

O nome pode até incomodar, mas a realidade atual da "Rua do lixo" é bem diferente do que era no passado, até meados da década de 1980. Antes ocupado por detritos jogados a céu aberto, por homens e mulheres que disputavam restos de comida, o espaço transformou-se numa imensa entidade que oferece assistência social, médica e religiosa a pessoas carentes. É nesse ambiente que jovens alemães quebram estigmas, trocam experiências, ensinam e aprendem com a comunidade.

A Fundação Terra existe desde 8 de setembro de 1984 com apoio financeiro de pessoas físicas e jurídicas, além da ajuda do governo alemão. Não é à toa que a presença de jovens loiros dos olhos azuis na cidade sertaneja virou rotina e rompeu preconceitos - de lá e de cá. A cada ano, rostos diferentes vêm a Arcoverde para aprender português e se dedicar a uma das atividade sociais oferecidas na instituição, como creche, maternal e abrigo de idosos. Alguns alemães são liberados do serviço militar obrigatório quando querem se dedicar à Fundação por um período de 10 meses a um ano.


Padre Airton, o responsável pela transformação.

É divertido conversar com os jovens assim que eles chegam da Alemanha. O diálogo deixa interrogações e provoca sorrisos. Exige mímica e frases bem pausadas. Logo depois, especialmente com a ajuda das crianças atendidas pela entidade, aprendem a falar português e se integram à vida cultural do município. Durante o dia, cada um escolhe uma área da instituição para trabalhar. À noite, no horário de folga, é possível vê-los em festas de forró pé de serra e samba de coco de raízes. É um intercâmbio cultural que não se limita ao estudo, mas requer vontade de se doar. Isso porque o público atendido na fundação vai de mães grávidas a idosos carentes. O trabalho dos jovens não é remunerado.

Atualmente, existem seis alemães como voluntários na Fundação Terra Joaquim Nickcaus, 22 anos, Sonja Henze, 21, Mirian Goeze, 20, Laurica Brickforth, 20, e Marlene Shuttes, 19. Todos são de classe média e vieram com apoio dos pais, que admiram a entidade e fazem doações financeiras. Enfermeiro, Joaquim resolveu se dedicar aos mais velhos, aos que não tem família ou foram esquecidos. Acorda cedo, mede a pressão dos maiores de 60, dá banho e os ajuda a comer. Mirian e Marlene se apaixonaram pelas crianças e decidiram contribuir com a creche. Já Sonja e Laurica exercem atividades no maternal e no jardim, respectivamente. Segundo Mirian, o que eles mais gostam no trabalho voluntário é a receptividade. "Tínhamos a imagem de que o Brasil era muito desorganizado. Não sabíamos, por exemplo, que a fundação era tão grandiosa até chegarmos aqui".

 


 


Um sonho que se fez realidade




A Fundação Terra surgiu de um sonho do padre Airton Freire, que nasceu em São José do Egito, em 1955. Ordenado sacerdote em 1982, foi na "Rua do lixo", dois anos depois, já em Arcoverde, que começou a traçar um novo destino. Para ele mesmo e para o próximo, o pobre, o abandonado. A instituição que completou bodas de prata neste ano atende hoje a duas mil pessoas carentes ao mês. A "Rua do lixo" atualmente é tomada por imóveis pintados de cor azul bebê onde funcionam unidades de saúde, creches, escolas e asilo de idosos. Um lugar de encher os olhos, causar orgulho nos funcionários e voluntários, como os jovens alemães.

Nem sempre foi assim. Quando o padre chegou aquele lugar, o que não faltava era gente morando em barracos de papelão ou taipa, em meio a detritos, sujeira e ratos. Uma miséria total na qual as pessoas viviam sem água, sanitário, luz elétrica ou qualquer assistência médica. Com fé, o padre lutou contra essa realidade, conseguiu ajuda aqui e acolá e conquistou o impossível até então: dignidade para as pessoas, cidadania. "Minha maior alegria é ver uma criança lendo. Quando cheguei à Rua do lixo, ninguém lia uma única palavra", declarou.

Segundo o padre, a presença de jovens alemães em Arcoverde é um reconhecimento ao trabalho da Fundação Terra. "No final, emitimos uma declaração do desempenho e da área em que tiverem trabalhado e isso é reconhecido pelo governo alemão e pelas comunidades Católicas ou Luteranas. Eles pagam a passagem e seguro e nós lhes damos comida e moradia. Aqui, eles podem trabalhar em várias áreas sociais, além de ter a possibilidade de oferecer curso de alemão, jiujitsu e computação", declarou. A cada dois anos, de acordo com o padre, alguém da direção da fundação vai às comunidades de onde os jovens vieram.

 

Projetos de destaque



Abrigo

A fundação oferece 24 leitos durante à noite para acolher mendigos e pessoas muito pobres que estão de passagem por Arcoverde e que, por não terem onde ficar, perambulam pelas ruas. Essa pessoas são acolhidas por uma noite na Casa da Misericórdia da Fundação Terra, onde tomam banho, rezam, fazem uma refeição e dormem numa cama quente. No dia seguinte, logo cedo, partem

Creche

Quando as crianças completam um ano de idade são transferidas para a Christus Creche, onde ficam sob os cuidados de educadoras infantis, em regime integral (durante todo o dia), possibilitando que suas mães realizem outras tarefas em casa e/ou no trabalho

Mães

As mães gestantes têm acompanhamento pré-natal, alimentam-se com uma dieta básica e são orientadas sobre higiene e saúde. Após o parto, continuam a ser atendidas juntamente com seus bebês


 

Recem-nascidos

Os bebês, até um ano de idade, ficam durante todo o dia numa creche, sob os cuidados de uma educadora infantil contratada pela fundação e por mães que se revezam durante a semana

Saúde

A Fundação Terra oferece atendimentos nas áreas de clínica médica, pediatria, ginecologia, odontologia, vacinação e primeiros socorros, além de fornecimento de medicamentos

Alimento

A cozinha Comunitária da Fundação Terra fornece, diariamente, 645 refeições para crianças, gestantes e mães que amamentam. Atualmente, há 500 famílias cadastradas nos programas alimentares desenvolvidos na fundação e que recebem cestas básicas duas vezes por mês

Fonte: Fundação Terra


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