Reportagem do Jornal do Commércio em 30/07/2008 Criador da Fundação Terra, padre Airton Freire, 55 anos, desenvolve 15 projetos sociais que estão ajudando a mudar vidas no Sertão pernambucano O padre pernambucano Airton Freire, 55 anos, desenha com os dedos na areia para mostrar como era a primeira construção da Fundação Terra. O gesto, a princípio banal, faz parte da história da organização não-governamental, criada há 24 anos pelo religioso no município de Arcoverde, no Sertão de Pernambuco. Foi com os dedos no chão que os primeiros alunos da instituição aprenderam a escrever. Na época, a escolinha não passava de uma casa de taipa, sem quadro-negro nem cadeiras. Hoje, a Fundação Terra atende a 2 mil pessoas, tem creche para crianças de 1 a 3 anos, escola de ensino fundamental, curso profissionalizante e até abrigo para idosos. Ao todo, 15 projetos são mantidos pela fundação com doações do Brasil e do exterior. “É um oásis nessa comunidade”, diz o padre, que ficou tocado com a situação dos moradores desde o dia em que rezou a primeira missa no local. Ele lembra que a Rua do Lixo, onde ficava o Lixão de Arcoverde, atraía uma multidão de homens, mulheres e crianças que disputavam com os animais restos de alimentos. A cena, já freqüente nas grandes cidades, era ainda mais absurda para um município que, na época, tinha pouco mais de 50 mil habitantes. “Eles vinham tangidos pela seca e tinham na Rua do Lixo a única chance de sobrevivência.” Ao longo de duas décadas, a Fundação Terra conseguiu retirar o lixão do lugar. As casas de taipa foram substituídas por outras de alvenaria por meio de um projeto de construção de casas populares mantido pela ONG e hoje boa parte da Rua do Lixo é ocupada por instalações da fundação. A Pax Christi Schola é a maior delas. A escola tem cerca de mil alunos e oferece ensino do pré-escolar à quarta série, além de cursos profissionalizantes destinados a adolescentes e adultos. Sandoval Lucas, 44, já está com visto de trabalho para o Canadá. O passaporte foram as aulas do curso de soldador de estrutura oferecido pela escola. Ele conseguiu um emprego na indústria naval na província canadense de Alberta e deve ganhar por ano US$ 54 mil, quase R$ 7 mil por mês. A viagem está marcada para novembro, um mês após o final do curso. “Agora eu tenho uma nova profissão e um emprego”, diz. Em meio aos cursos de marcenaria, confecção de calçados, apicultura, reciclagem de papel e montagem de bijuteria, o de soldagem de estrutura é o que mais impressiona. Os 20 alunos aprendem o novo ofício com instrutores de fora do País e em equipamentos de última geração, doados por uma empresa naval do Ceará. ALIMENTO E MORADIA Mas é nas ações básicas de alimentação e assistência à saúde que está o foco da fundação. No Centro Mater Christi, as mães gestantes têm acompanhamento pré-natal, recebem alimentação e participam de palestras sobre higiene e saúde preventiva. O atendimento continua após o parto, durante a amamentação e até o primeiro aniversário da criança. O centro mantém ainda uma creche, onde as crianças ficam sob os cuidados de uma educadora infantil e das mães, que se revezam no local. Já as crianças maiores e os adultos são beneficiados pelo atendimento voluntário de profissionais de saúde da região e recebem assistência nas áreas de clínica médica, pediatria, ginecologia, odontologia, vacinação e primeiros socorros, além do fornecimento de medicamentos. A Fundação Terra construiu também uma cozinha comunitária, que fornece por dia 645 refeições para crianças, mulheres gestantes e mães que amamentam. Além disso, 500 famílias cadastradas recebem cestas básicas duas vezes por mês. Já as famílias que moram em habitações precárias podem ter as casas recuperadas por um programa com capacidade para reformar até 30 moradias a cada ano. A assistência à população carente continua com o projeto Domus Christi, que abriga 21 idosos, de 68 a 101 anos, todos abandonados pela família. Cada um tem uma pequena casa, com quarto e banheiro. Além de assistência médica e odontológica. Além de manter uma instituição da dimensão da Fundação Terra, Padre Airton Freire ainda encontra tempo, disposição e inspiração para compor e escrever. São nada menos que 37 CDs produzidos com músicas, mensagens e orações e 55 livros escritos. A Casa Onde Moro, o mais recente, será lançado hoje, às 19h, no Bloco G da Universidade Católica de Pernambuco, no Recife. O livro é um diário escrito ao longo de um ano e traz, em 144 páginas e quatro linguas (português, inglês, francês e alemão) , mensagens inspiradas em situações corriqueiras. A simples disposição de um quadro ou de uma escultura no próprio quarto é o mote para padre Airton discorrer sobre tolerância e maternidade. O baobá, plantado há cinco meses pelo religioso, também o leva a escrever sobre a distância e a saudade das coisas que estão ao nosso lado e sobre as quais nem sempre nos damos conta. Antes mesmo de lançar o primeiro volume, padre Airton já trabalha no número do livro. Os textos começaram a ser escritos em dezembro do ano passado e vão registrar os pensamentos diários do religioso até o final do ano. Apesar da rica produção, padre Airton não costuma mais escrever com as próprias mãos. A exceção foi A Casa Onde Moro. Com saúde abalada e muitas atividades relacionadas à Fundação Terra, o religioso prefere ditar. “Meu pensamento é mais rápido que minha escrita”, diz ele. O autor de A Casa Onde Moro foi ordenado padre aos 26 anos. Estudou filosofia e teologia num seminário. Mais tarde cursou a faculdade de psicologia e fez formação em psicanálise. As mensagens que ele transporta para os livros já vêm formatada em pensamento e quase todas têm tom profético, qualidades de repentista. E não à toa: padre Airton nasceu em São José do Egito, celeiro de cantadores e cordelistas. RETIROS Tanta eloquência atrai milhares de fiéis todos os anos a Arcoverde para o retiro espiritual sob orientação de padre Airton. O religioso chega a receber grupos de oito Estados brasileiros e construiu até uma casa para abrigar os que o procuram em busca de evangelização e crescimento espiritual. Os participantes devem ficar em silêncio durante o tempo em que estiverem no programa, com permissão de falar apenas com o religioso, que costuma se definir “um vaqueiro da esperança”. |
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